terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Pechada - Luís Fernando Veríssimo




O apelido foi instantâneo. No primeiro dia de aula, o aluno novo já estava sendo chamado de "Gaúcho". Porque era gaúcho. Recém-chegado do Rio Grande do Sul, com um sotaque carregado.

– Aí, Gaúcho!

– Fala, Gaúcho!

Perguntaram para a professora por que o Gaúcho falava diferente. A professora explicou que cada região tinha seu idioma, mas que as diferenças não eram tão grandes assim. Afinal, todos falavam português. Variava a pronúncia, mas a língua era uma só. E os alunos não achavam formidável que num país do tamanho do Brasil todos falassem a mesma língua, só com pequenas variações?

– Mas o Gaúcho fala "tu"! – disse o gordo Jorge, que era quem mais implicava com o novato.

– E fala certo - disse a professora. – Pode-se dizer "tu" e pode-se dizer "você". Os dois estão certos. Os dois são português.

O gordo Jorge fez cara de quem não se entregara.

Um dia o Gaúcho chegou tarde na aula e explicou para a professora o que acontecera.

– O pai atravessou a sinaleira e pechou.

– O que?

– O pai. Atravessou a sinaleira e pechou.

A professora sorriu. Depois achou que não era caso para sorrir. Afinal, o pai do menino atravessara uma sinaleira e pechara. Podia estar, naquele momento, em algum hospital. Gravemente pechado. Com pedaços de sinaleira sendo retirados do seu corpo.

– O que foi que ele disse, tia? – quis saber o gordo Jorge.

– Que o pai dele atravessou uma sinaleira e pechou.

– E o que é isso?

– Gaúcho... Quer dizer, Rodrigo: explique para a classe o que aconteceu.

– Nós vinha...

– Nós vínhamos.

– Nós vínhamos de auto, o pai não viu a sinaleira fechada, passou no vermelho e deu uma pechada noutro auto.

A professora varreu a classe com seu sorriso. Estava claro o que acontecera? Ao mesmo tempo, procurava uma tradução para o relato do gaúcho. Não podia admitir que não o entendera. Não com o gordo Jorge rindo daquele jeito.

"Sinaleira", obviamente, era sinal, semáforo. "Auto" era automóvel, carro. Mas "pechar" o que era? Bater, claro. Mas de onde viera aquela estranha palavra? Só muitos dias depois a professora descobriu que "pechar" vinha do espanhol e queria dizer bater com o peito, e até lá teve que se esforçar para convencer o gordo Jorge de que era mesmo brasileiro o que falava o novato. Que já ganhara outro apelido: Pechada.

– Aí, Pechada!

– Fala, Pechada!

Crônica de Luis Fernando Verissimo
Ilustrada por Santiago

Defenestração - Luís Fernando Veríssimo

Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra. Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.
- Os hermeneutas estão chegando!
- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
- Alo...
- O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo devia ser um barulho que o corpo faz ao cair na água. Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
- Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam. Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais. Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:
- Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata. Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião (dicionário do Aurélio Buarque) que não me deixa mentir. ¿ Defenestração¿ vem do francês ¿defenestration¿. Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela. Ato de atirar alguém ou algo pela janela! Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração? (...) Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada. Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.
-Querida...
-Mmmm?
- Há uma coisa que preciso lhe dizer...
-Fala, Amor
-Sou um defenestrador.
E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama: Estou pronta para experimentar tudo com você! TUDO! Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e babulcia:
- fui defenestrado...
Alguém comenta:
- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela?
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.

Crônica - Luís Fernando Veríssimo

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

"A escola somos nós" - letra e música de André Luiz Raphael (Profirmeza)

"A escola somos nós"
Letra e música de André Luiz Raphael
(Profirmeza)

Você vai lembrar de mim
quando o próprio nome
no caderno escrever

Você vai lembrar de mim
quando enumerar as coisas
que você viveu

Você vai lembrar de nós
Quando ler e compreender
Que o futuro começa aqui

A escola é dentro de nós
A gente ensina, a gente aprende
e esta aula não tem fim

A escola não é um muro
A escola não é um prédio
A escola não é sala, não é lousa, não é giz
A escola é a servente, o jardineiro, a diretora
O professor e o aprendiz
Eh! Laia! A chamada já vai começar!
Eh! Laia! Vamos moçada, tá na hora de estudar!

Você vai lembrar de mim
Quando descobrir que até a vida tem lições

Você vai lembrar de mim
Quando entender que o mundo espera por você

Você vai lembrar de nós... (repete o negrito)

Falado:
“Atenção à chamada:
Alegria: presente
Esperança: presente
Amanhã: presente, presente...

Futuro: presente
Vida: presente
Violência: FALTOU!

Que falte sempre!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

SOBRE POEMAS E PÊSSEGOS

Poemas são como pêssegos
amálgama entre o desejo da noite
e a euforia do dia
amenos - felpudos
lisos - macios
concretos - abstratos
Nem secos, nem suculentos
interlúdio
intermeio
oculto recheio

Pêssegos não se engolem inteiros
saboreiam-se aos pedaços
e se planta o restante
em terreno certeiro

Assim como o pêssego
o poeta planta os seus poemas
em campos alheios
do agora ou do tempo

e com utopia e certeza
acredita
que novos pêssegos virão
esperando quem os encontre
em propícia estação

Se poemas são pêssegos
degusta-os
com razão e emoção

e não se esqueça de guardar
as sementes
entre as raízes de tua mente
e teu coração
Sede um pessegueiro
Sede um poeta
Sede que é nata
Sede que é meta

Entre um poema
um pêssego e um poeta
há muito
mais
que
um
simples
pê

ppp

Autor: Profirmeza

ANTOLOGIA DO SENTIDO (PARA ENSINAR GÊNEROS POÉTICOS)

EXPRESSEI O AMANHECER EM LIMERIQUES
PARA LEMBRAR DE NOSSA INFÂNCIA

EXPRESSEI NOSSA TIMIDEZ EM HAICAIS
PARA QUE A DISTÂNCIA FOSSE BREVE E PASSAGEIRA

EXPRESSEI NOSSA NOSTALGIA EM ALEXANDRINOS
PARA REVIVER E RELEMBRAR BONS MOMENTOS

EXPRESSEI NOSSA ALEGRIA EM TROVAS E QUADRAS
PARA QUE FOSSEM POPULARES, CONSTANTES E ESPERADAS

EXPRESSEI NOSSO AMOR EM SONETOS
PARA QUE FOSSE ÚNICO E INTENSO

EXPRESSEI NOSSO DESEJO EM POEMAS CINÉTICOS
PARA QUE O VERBO TOCASSE A CARNE

EXPRESSEI NOSSA ESPERANÇA EM CORDÉIS
PENDURADOS EM TODOS OS CANTOS E CÉUS

EXPRESSEI NOSSOS SONHOS EM POEMAS MODERNOS
PARA QUE CHEGASSEM A FUTUROS CADERNOS

E EM MEIO A PEDRADAS DE RAP
EXPRESSEI

NOSSA IRA
NOSSA LIRA
NOSSA FÚRIA

AUTOR: PROFIRMEZA

MIL POEMAS

HAICAIS PRA INICIANTES
LIMERIQUES PRA CRIANÇAS
ALEXANDRINOS PRA SAUDOSOS
QUADRAS, TROVAS PRA LEMBRANÇAS

SONETOS PARA AMANTES
CINÉTICOS PRA TOCAR
LETRA DE MÚSICA OU RAP
CORDÉIS PRA PENDURAR


MIL POEMAS
CONHECER

MIL POEMAS
ESCREVER

MIL POEMAS
O PERCURSO

LÍRICA CORRIDA ATÉ VOCÊ
YEH! YEH!


RIMA POBRE, RIMA RICA
VERSO LIVRE, TODO RIMADO
CHEIO DE MÉTRICA, CHEI0 DE MARRA
VERSO SOLTO, DE PÉ QUEBRADO

A FORMA POUCO IMPORTA
PARA O EU-LÍRICO NAVEGAR
POEMA É COMO UM COPO D´ÁGUA
ONDE SE PODE MERGULHAR

MIL POEMAS...


LETRA E MÚSICA: PROFIRMEZA

OUTRA QUADRILHA (PARÓDIA DE "QUADRILHA" DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

JOÃO COLAVA DE TERESA QUE COLAVA DE RAIMUNDO QUE COLAVA DE MARIA
QUE COLAVA DE JOAQUIM QUE COLAVA DE LILI
QUE NÃO COLAVA DE NINGUÉM.

JOÃO VIROU MENDIGO, TERESA INDIGENTE, RAIMUNDO MORREU DE BURRICE,
MARIA NÃO PASSOU NO VESTIBULAR, JOAQUIM VIROU JUMENTO E LILI
PASSOU NO CONCURSO PÚBLICO JUNTAMENTE COM SEU AMIGO CARLOS
QUE NÃO TINHA ENTRADO NA HISTÓRIA.

AUTOR DA PARÓDIA: PROFIRMEZA
TEXTO ORIGINAL: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE