terça-feira, 26 de abril de 2011

A LEI DO SILÊNCIO (WALCYR CARRASCO)




Três horas da manhã. O vizinho está dando uma festa anos 70. Não fui convidado. Mas é como se estivesse lá dentro. O som invade meu quarto. Faço as contas: pela seleção musical, a turma deve andar na maturidade. Quanto tempo um bando de cinqüentões agüenta ficar saltitando na sala? Eis a resposta: muito! Muitíssimo! A música só pára depois das 4. Volto às cobertas. Inicia-se uma sucessão de barulhos de alarmes de carros sendo desligados. Piiii. Pum. Uóóóóó. Suporto, esperançoso. Os convidados partem! Oh, não! Um grupo fica na minha esquina. Conversando em altos brados. Rindo. Dá vontade de atirar uma bacia d'água! Reflito:

– Impossível resistirem tanto tempo no frio.

Quem disse? Fazem piadas. Flertam. Marcam encontros. Finalmente, quando vão embora, meus olhos ardem. Caio na cama. Acordo poucas horas depois com o ruído de uma serra elétrica. É a obra do vizinho da frente. Em pleno sábado. Cedo! Depois da 1 da tarde, vou falar com o mestre-de-obras.

– Vocês já deviam ter parado.

– É que a gente está com pressa de terminar.

Eu, como fico?

Uma outra casa tem um cachorrinho que late e geme a noite toda. Noite após noite! Nunca ouvi os moradores pedirem para ficar quieto. O cachorro não tem culpa. Os donos deviam estar atentos! Soube de uma obra, recentemente, em um apartamento gigantesco no centro da cidade, onde o morador de baixo chamou a polícia para parar com as marteladas fora de horário. O de cima, ofendidíssimo, ameaçou pular no seu pescoço, porque estava atrapalhando a reforma! Sem falar nas obras públicas. Alguém já enfrentou mudanças na tubulação de gás, com a britadeira na calçada durante a noite inteira? Já passei por isso, durante uns quinze dias. Depois de me revirar na cama durante horas, eu me levantava. Impossível ler. Sentava na sala, esperando o dia. Paravam de manhãzinha. Era tão ruim que eu até ficava aliviado com o barulho do congestionamento!

A questão do silêncio não se restringe a obras, cães e festas. Outro dia dei carona a um casal, depois de uma reunião de trabalho. O rapaz sentou no banco de trás. Ligou o celular. Percorremos uns 10 quilômetros até um shopping. Estacionei. Descemos. Entramos em uma doceria. Ela pediu por ele. Sentamos. Ele continuava na ligação. Esbravejando:

– Veja lá o que está acontecendo! Assim não dá!

Eu e a moça não conseguíamos falar, tal a altura da conversa. Comemos o bolo à espera para falarmos de nossos próprios negócios. Ele desligou. Respirei fundo. Cedo demais! O marmanjo iniciou nova ligação!

Um amigo quase perdeu os tímpanos no elevador. Três senhoras conversavam, uma tentando falar mais alto que a outra.

– Espera, deixa que eu tenho uma coisa para contar...

– Só quero terminar o que estava dizendo...

– Ih! Sabem do que me lembrei?

Ao chegar ao térreo, o rapaz estava zonzo!

Há pessoas que falam alto até no ambiente de trabalho. Em uma redação, havia uma jornalista com voz tão estridente que o crítico de cinema comentava:

– A dublagem devia ser obrigatória!

Já presenciei dois vizinhos de apartamento discutindo. O de cima tocava bateria.

– Ensaio com meus filhos, é uma forma de estarmos juntos, em família!

O outro nem sabia o que dizer: como impedir a união entre pais e filhos?

Ninguém percebe que os outros precisam dormir, que voz alta incomoda? Às vezes, tudo que quero na vida é ficar em paz, bem quietinho. Diz o antigo ditado: "A palavra é prata, o silêncio é ouro". Por mais valioso que seja, o silêncio não costuma ser respeitado como merece!

CHIQUE NO ÚLTIMO (WALCYR CARRASCO)




Todo mundo gosta de ser chique. Até quem finge não se importar com isso. Ninguém gosta de espetar a coxa de frango com o garfo e vê-la sair voando para o prato do vizinho. Ou de chegar a uma festa de camiseta e descobrir que os convidados estão de paletó e gravata. Os esnobes costumam dizer:

– Ser chique é ser simples! É ser quem você é.

Puro disfarce! As peruas não querem confessar as horas torturantes no cabeleireiro, os pavões fingem não se importar, enquanto exibem a gravata de grife. Constatei que estava por fora quando uns amigos foram jantar em casa. Servi o vinho. Adoraram. Não resisti:

– É um vinho baratíssimo!

Contei o preço, orgulhoso de minha descoberta. Silêncio geral. Um amigo, enólogo, pegou a garrafa, examinou o rótulo.

– Certamente é de segunda linha! – concluiu.

Quase entrei embaixo da mesa. Não podia ter fechado o bico? Fingido que havia pago 1.000 dólares a garrafa? Oh, língua!

– Chique é nunca falar quanto custa alguma coisa! – aconselhou outro conviva.

Em seguida, foi além. Eu havia colocado as facas do modo errado, com o corte para fora. Uma gafe.

– O corte tem de ficar para dentro. Senão, é muito agressivo.

– Agressivo? Vão pensar que pretendo assassinar alguém? – rosnei.

E chique é dar lição de etiqueta ao dono da casa? Francamente!

Às vezes acho que tentar ser elegante é o melhor jeito de enlouquecer! Dia desses, descobri um grupo na internet – mais precisamente, uma comunidade do Orkut – sobre o que é ser chique. Tem mais de 1.500 pessoas! Ficam batendo papo, trocando dicas. Entrei em uma discussão sobre magreza. Bem a propósito. Nos últimos tempos, a humanidade parece acreditar que bonito é ser esguio como um fio de macarrão cozido. Bonito até pode ser, mas sexy... A discussão pegou fogo. Alguém argumentou:

– Mas o Jô Soares é chique!

Bingo! Ninguém pode argumentar que o gordo mais famoso do país não seja elegante. Tem estilo. Veio o toque decisivo.

– Há uma porção de modelos magérrimas que não podem abrir a boca!

Uma das participantes confessou:

– O salão de beleza é minha segunda casa!

Outra contrapôs:

– Bom é assumir os cabelos cacheados!

Fiquei pensando: por que tantas mulheres veneram cabelos lisos? Escaldam a cabeça. Fazem chapinha?

Acompanhei uma longa discussão sobre se escarpim alto combina com saia curta. A conclusão foi: sim! Desde que seja preto com saia escura.

Gravata com camisa de manga curta? Reprovadíssimo! Pior mesmo, homem de bermuda, sapato social e meia esticadinha. Horror dos horrores, a bolsa pochete.

– Ainda mais de couro! – alvejou uma garota.

Comprovei: pantufas têm seu charme. Existem de leõezinhos, de joaninhas, de cãezinhos.

– Tenho uma de sapinhos que levo para todo lugar. Uma porção de gente quer saber onde comprei! – revelou uma jovem.

Um tema conquistou a unanimidade: adesivo de carro é brega. O grupo da internet fez um ranking dos piores:

"Nas curvas do teu corpo capotei meu coração".

"Aqui só entra avião".

"Nóis capota mais num breca".

"Tá véio mais tá pago".

Todo mundo fez piada. Até que uma garota confessou:

– Sempre tive horror de adesivo de carro. Mas não resisti e botei a foto de meu cachorrinho colada, bem no cantinho...

Unanimidade geral novamente: cachorrinho pode! Gostei. Não passo o tempo todo querendo ser chique. Também, não pretendo ser confundido com um homem das cavernas! Ser chique pode não ser a coisa mais importante do mundo. Mas que é gostoso... ah, é!

GENTILEZA AO AVESSO (WALCYR CARRASCO)




Não me conformo com certos comentários corteses. Havia um bom tempo, eu estava jogando vôlei. Saltei para rebater a bola. Aterrissei na quadra de cimento. Ralei a perna. Fui para o banco. A coxa em chamas. Que felicidade! Veio um colega. Deu o maior apoio:

– Não foi nada.

Como? Nem podia sofrer em paz? Já vi a situação se repetir mil vezes. A criança cai de boca no chão do shopping. A mãe garante que "não foi nada!". A modelo desaba na passarela. Tornozelo torcido. O contrato, confete. Sempre há um simpático para garantir que não é nada, nada!

Pior é velório. A pessoa com o coração partido. Chega alguém, animador:

– Não chore!

Ué, não pode chorar? Deveria estar jogando uma partida de pingue-pongue? Toda vez que perdi alguma pessoa querida e ouvi esse conselho, tive vontade de sair no tapa.

Se na casa alheia servem um prato pavoroso? Já me aconteceu. Era uma torta de frango com gosto de sapato velho. Cada pedacinho deslizava pela minha garganta feito um pedregulho! Engoli tudo, para não fazer desfeita. A anfitriã colocou outra fatia no meu prato.

– Coma mais um pedacinho!



Ah, frase trágica! Que fazer com a torta? Queria enfiar no bolso, disfarçadamente! Mas, se alguém visse, ainda ia dizer que estava levando comida para casa!

Também fico fora de mim ao ouvir:

– Até que você não está tão mal assim!

Esse mimo costuma ser dito justamente quando a gente tenta cavar um elogio. Chego a um coquetel de mangas arregaçadas, jeans e tênis. Todos os outros convidados estão de terno. Para me sentir à vontade, comento com a garota que me recebe:

– Ih! Acho que errei o traje.

Vem a frase fatídica. Algum ser na face na Terra se acalma a ouvir tal consolo? Não estou tão mal assim? Fico com a sensação de estar péssimo! Existem várias adaptações, uma mais torturante que a outra.

– Você não dirige tão mal assim!

– Você não engordou tanto assim!

A pior de todas:

– Você não está tão velho assim! – quando dito por uma jovem, bem novinha, é doloroso!

Corro ao espelho. Os pés-de-galinha aumentaram?

O cheque volta. O mês está se espichando até o próximo salário! Procuro uma amiga. Não, não vou pedir dinheiro emprestado. Só ambiciono um ombro para me lamentar. Ela diz:

– Não se preocupe!

Belo consolo! Só se for doido! O conselho vem seguido de uma divagação filosófica:

– Não tem do que reclamar! Tem gente muito pior que você!

Sim, é verdade! Há uma multidão em situação ainda mais dramática. Mas e meu rombo no banco? Devo esquecer? Sair cantando pelas ruas?

A adolescente sai para a balada e avisa à mãe:

– Fique sossegada.

Ah, é? A pobre senhora vai ficar calmíssima, enquanto rola a madrugada? Ao amanhecer, a criatura chega trançando as pernas e comenta:

– Viu só? Tudo bem!

É a típica situação em que nada está bem. Não fica bem nem dizer uma coisa dessas! Mas ai da mãe que se rebelar diante da afirmação!

Até assaltantes praticam esse tipo de etiqueta. Um amigo foi pego em um seqüestro-relâmpago. No carro. O sujeito apontou o revólver. Garantiu:

– Nós tamo aqui numa boa. Fica tranqüilo.

Que beleza! Se estavam "numa boa", por que enfiar o cano no nariz!? Haja tranqüilidade!

Ao se separar, uma amiga entrou em guerra com o marido. Os dois quase se esganaram por causa da partilha dos bens. Até a posse do filho entrou na dança! Uma tia idosa quis dar uma força:

– Tudo vai dar certo, é questão de tempo!

Era a prova de que pior não podia ficar! Gentileza por gentileza, quando não há o que dizer, é melhor fugir de uma frase feita.

CERTO OU ERRADO (WALCYR CARRASCO)

A língua portuguesa está mudando. Se é um processo bom ou ruim, tenho minhas dúvidas. Mas é fato. Ao longo dos séculos, o português passou por inúmeras modificações. Já tentei ler textos do século XVIII. Impossíveis de compreender. Mal se reconhece o idioma pátrio. Ultimamente, tudo parece mais rápido. Palavras que ontem não existiam estão incorporadas ao vocabulário. Como o verbo deletar. Vindo do inglês, tornou-se comum com a popularização dos computadores. Significa apagar, eliminar. Já vi uma mocinha comentar sobre um desafeto:

- Deletei o safado da minha vida!

Quem costuma entrar na internet está familiarizado com as incontáveis abreviações. Criou-se um português codificado. Às vezes é preciso decifrar: "kd vc" quer dizer "cadê você?" ou, mais genericamente, "por que você sumiu?". "Blz" é "beleza", uma gíria para expressar concordância. "Rs", "risos". "Aki" é o popular "aqui". E assim por diante. A grafia de palavras com til também tem mudado: "não" é "naum", por exemplo. Ainda me confundo com certos hieróglifos, como :) para indicar um sorriso. Além de uma série de outros sinais, de cujo significado não tenho a menor idéia! Muitas vezes me sinto um mastodonte atolado enquanto o mundo caminha velozmente.

É bom ou ruim? Continuo a me perguntar! Em alguns casos, é péssimo. Raramente vejo o "há" grafado de maneira correta. Costumam esquecer o "H". É de doer, pois demonstra a falta de alguns rudimentos básicos. Em legendas de cinema, já cansei de ver a grafia errada: "a muito tempo..." Mesmo em jornais, eventualmente. Talvez seja inevitável: o "H" corre o risco de desaparecer, pela falta de uso. (E de utilidade, convenhamos, pois no início de palavras não tem sentido fonético.)

Ainda usamos expressões surgidas em outras épocas, quando a vida era diferente. Outro dia um amigo fofocou:

- Ela deu com os burros n'água!

Embora nas cidades grandes ninguém mais ande de carroça nem corra o risco de atolar com os quadrúpedes. Quando, certa vez, escrevi uma história de época, analisava as expressões dentro do significado histórico para saber se eram adequadas ou não. Um personagem falava:

- Comi à tripa forra!

"Tripa forra" vem da época da escravidão, quando o escravo forro era livre. Significa que se comeu à vontade, livremente. Em outra ocasião, botei um personagem vociferando:

- Vou te tirar do meu caderninho!

Um pesquisador me alertou:

- Na época as pessoas não tinham telefone. Só se passou a botar e tirar pessoas do "caderninho" ao surgir o hábito de anotar nomes e números.

Formas de falar logo ficarão obsoletas. Um ex com dor-de-cotovelo ainda pode reclamar:

- Ih! Ela queimou meu filme!

As máquinas fotográficas ainda têm filmes. Do jeito que as coisas vão, em breve todas serão digitais. Surgirá outro jeito de dizer a mesma coisa.

Aprender a usar a gramática, tempos verbais e a grafia correta é uma maneira de treinar o raciocínio. Quem não sabe falar ou escrever provavelmente não articula bem os pensamentos. Tenho medo de que certas mudanças sejam fruto de escolas péssimas, deficiências de aprendizado ou, simplesmente, preguiça. Mas também é preciso aceitar a evolução!

Portanto, nem tanto ao mar nem tanto à terra! Ei... Acho que essa expressão vem dos tempos em que marinheiros ainda saíam em busca de novos mundos! Na época, era moderníssima! Mais um motivo para apreciar nossas modernidades! Cada época se espelha em um modo de falar, ou a vaca vai para o brejo, ou a gente cai do cavalo, ou entra em um buraco negro. Fascinante é saber que a língua, enfim, é viva!

- Walcyr Carrasco, Revista VEJA

DESCASCAR O ABACAXI (WALCYR CARRASCO)

O início de um ano é repleto de boas intenções. Faço planos. Pretendo, por exemplo, me dedicar ao rapel. Não, nunca pratiquei. Acho o máximo ficar dependurado numa montanha. Até agora, só encontrei uma escola, que ensina a técnica em viadutos. Tive medo de acabar em cima do capô de um carro, no primeiro escorregão. Um amigo me indicou uma escola em Brotas. Talvez. Em 2008 (sim, já ando fazendo planos a longo prazo), espero ter coragem para me sacudir como um ioiô gigante de cima de uma ponte. Quem experimentou garante que é o máximo!

Olho também para o ano que passou. Um lance me impressionou. Tomei consciência de quanta raiva a gente carrega. Aconteceu no trânsito, é claro! Um amigo dirigia. Um homem fechou seu carro. Meu amigo xingou. Fez questão de ultrapassar, aos gritos.

– Eu podia ter batido!

– Não bateu, é o que importa – ponderei. – Para que gritar?

– Ele merece. Não devia estar na rua dirigindo.

– Não sabemos o que está acontecendo – insisti. – Pode ser tímido. Ou estar com um problema. Para que brigar?

Meu amigo resmungou. Foi como um clarão. "Quantas vezes não fico com raiva à toa?", pensei. Mil pequenos fatos me enlouquecem no dia-a-dia. Semanas atrás, estava em um restaurante que tinha convênio para estacionar com manobrista. Entreguei meu tíquete para pegar o selinho. O garçom o perdeu. Levantei-me. Briguei. Chamei o gerente.

– Eu acompanho o senhor até lá e explico o que houve – propôs ele.

Não aceitei, insistindo:

– É um absurdo!

Fui pegar o carro, furioso. O rapaz que me atendeu só pediu um documento do veículo. Confirmou que era meu. Em dois minutos o assunto estava resolvido. Mas eu... ah, eu não! Sentia um tremendo mal-estar. Fui para casa com raiva. Não havia sabonete na pia. Chamei a empregada:

– Não pode ficar sem!

– Eu só estava lavando o banheiro, depois ia pôr.

Resmunguei e subi. Corri a olhar as camisas. Uma estava mal passada.

– Tome mais cuidado com minhas camisas.

Queria descontar, de qualquer jeito.

A cidade é estressante. O trânsito, a agitação. Vejo a mim, e a boa parte das pessoas, sempre por um fio. Comecei a meditar sobre o tema.

– Por que as pessoas têm tanta raiva, estão sempre prontas a explodir?

Não conheço nenhum sistema para me livrar da vontade de sacudir alguém. Nem vou parar de sentir raiva – muitas vezes é até uma reação saudável. Quero impedir que ela me faça mal, a meus amigos, a quem me cerca. Dia desses um jovem advogado me enviou uma conta que achei salgada. Tentei brincar com a delicadeza de um elefante:

– Vou mandar uma carta para o Palácio do Planalto, porque você está estourando as metas de inflação – eu disse ao telefone.

– Achou caro? – veio uma voz tímida do outro lado.

– É caso de chamar o Procon.

Silêncio. Em seguida, sério:

– Faz o seguinte. Você me paga quanto quiser.

Parei, surpreso. Só estava querendo um desconto. Ia perder uma amizade.

– Jamais faria isso. Não fique magoado – expliquei. – Se fui grosseiro, desculpe.

Quase ouvi o suspiro de alívio do outro lado.

– A gente vê no próximo trabalho – ele riu. – Mas agora você tem de pagar um jantar no japonês.

– Pago um par de sushis, bem baratinhos! – devolvi.

Rimos um pouco. Impedimos que a raiva tomasse a frente.

É o caso. Talvez seja o esporte, ou meditação, ou tirar humor de situações difíceis. A vida é melhor quando se controla a raiva. Mas e se a situação for espinhosa? Sem a casca, o abacaxi não é doce? Pois é. Neste ano, meu grande plano é aprender a descascar o abacaxi.

A IDADE DAS PALAVRAS (WALCYR CARRASCO)

Já cansei de ver gente madura falando gíria para parecer jovem. O trágico é que, em geral, a gíria é velha! Verbos, adjetivos e substantivos possuem maior permanência. Gíria é volátil. Terrível ver uma senhora madura e plastificada dizendo:

– Eu sou prafrentex!

O termo foi usado lá pela década de 60 para dizer que alguém aceitava comportamentos mais ousados, tipo viajar no fim de semana para a praia com um grupo de amigos, o máximo de liberdade imaginável até então. É passado. Assim como as variações para falar de homem bonito. Houve época em que era "pão", lá pelos anos 80 virou "lasanha". Agora se usa gato, se não estou atrasado. Volta e meia noto uma cinqüentona exclamar à passagem de algum atleta:

– Ai, que pão!

Esse é o mal das gírias. Marcam a juventude de cada um. O tempo passa. Fica difícil mudar o modo de falar. Às vezes ainda ouço um "é uma brasa, mora", usado por Roberto Carlos nos tempos do programa Jovem Guarda, início dos 60. Lembro do sucesso de "boko moko", criado por uma marca de refrigerante para identificar quem era cafona e não tomava a tal bebida. Caiu na boca do povo. Cafona vale? Ou devo dizer "out", como na década de 90?

As palavras expressam sua época. Certa vez estava escrevendo uma novela passada nos anos 20 e coloquei a expressão "vou tirar você do meu caderninho". Meu pesquisador me orientou:

– Naquele tempo poucas pessoas tinham telefone em casa. Não se falava assim.

O tal "caderninho" correspondia à agenda telefônica. Só passou a ser comum quando o aparelho se tornou mais popular.

Para escrever outra novela de época, passada no século XVIII, eu recorria ao raciocínio puro e simples para definir o modo de falar. Descobri que "comer à tripa forra" tinha a ver com o período da escravidão. O negro liberto era "forro". Deduzi que significava comer à vontade.

Outro dia, vendo uma reportagem de televisão, observei uma família simples com o telefone de teclas. Todo mundo tem. Até algum tempo atrás se discava o telefone. Hoje se tecla um número.

Reconheço. Tenho saudade de certos termos. Lembro de meu irmão mais velho dizendo "que carro jóia!". E "olha o broto!". Ou dos amigos nos anos 70, quando fiz faculdade. Freqüente era ouvir "tou numas com ela", equivalente, guardadas algumas proporções, ao "ficar" de hoje em dia.

Que adolescente aceitaria hoje ir a um "mingau dançante"? Vão para a balada, para a "night". Aliás, a maioria foge de mingau e de qualquer delícia que engorde!

Muita gente odeia gíria. Alguns a consideram um dialeto capaz de estraçalhar a língua. Esquecem-se de que, no seu tempo, também a usavam. Não é fácil acompanhar sua evolução. Outro dia ouvi:

– Eu deletei aquele sujeito da minha vida.

É a versão mais atual para "tirei do meu caderninho". No computador, deletar é eliminar. Apagar. Também se fala tranqüilamente:

– Eu estava casado, mas não estou mais.

Não tem nada a ver com casamento formal, necessariamente. Significa que o rapaz em questão viveu um relacionamento forte. Possivelmente, nem moravam sob o mesmo teto.

Eu me confundo: não sei se ainda se fala "hype" para indicar algo que no passado foi "in". Ou que alguém é "fashion", para dizer que está "nos trinques" como nos anos 80. Falar com um jeito antigo é pior do que botar calça boca-de-sino, ícone dos anos 60.

Não há corte de cabelo, Botox ou plástica que resista. Gíria velha denuncia a idade mais do que um festival de rugas!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O MONSTRO QUE O SISTEMA CRIOU (REALENGO)

Realengo: o monstro que o sistema criou

Sabe aquele monstro? Aquele, que provocou uma verdadeira chacina em uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro. Aquele mesmo. Ele nem sempre foi um monstro. Um dia (acreditem!) ele foi criança! Uma criança que o sistema consumiu. Uma criança que foi devorada pelo abandono, pelo tempo e pelas falhas de nossa sociedade, que, com suas políticas de massa e suas ações burocráticas, alimentam as mais alienantes criaturas e seus delírios.

Não estou defendendo o jovem assassino. Longe disto! Nada que este jovem tenha sofrido justifica tamanho ato covarde! Tamanha atrocidade! Não justifica, mas explica muita coisa. Explica um processo de criação de um monstro. A intenção aqui é lançar uma pedra no lago da conscientização para que, desta forma, possa contribuir para uma imunização da sociedade contra estas patologias que nos assolam diariamente, através do crime, da violência e outras aberrações em todos os setores, passando pela escola à sociedade. E evitar que outros monstros sejam gerados. Está na hora de fechar a fábrica e reformar a escola e, consequentemente, a sociedade.

Se fizermos um retrocesso na vida deste jovem, perceberemos que este foi abandonado, passando, posteriormente, por um processo de adoção. Em sua vida escolar, há indícios, segundo reportagens, que sofrera bullying e outros abusos. Depoimentos ainda revelaram um jovem calado, contraído, recluso, que era chamado de “bicha” por uns, “Bin Laden”, por outros, chegando, até mesmo, a ser jogado em uma lixeira. Pois é... a vítima do tempo, virou o monstro hediondo de hoje. Teve treinamento e livre estágio para isso: sua tortuosa vida escolar. Se a escola fosse uma obra de Dante, com certeza, para Wellington seria o inferno. Um inferno que o consumiu e o levou a procurar simpatizantes da exclusão, da dor, da revolta, da frieza e do endurecimento de coração. E o que o sistema fez? Nada! Cadê o assistente social que a escola deveria ter? Cadê o psicólogo que a escola deveria ter? Onde estão? Ninguém notou que o jovem sofria bullying? Ninguém notou que ele era muito introspectivo? Ninguém que notou que Jekill estava se tansformando em Hide? Ninguém notou que o jovem passava por uma metamorfose de Kafka? E caso tenham notado algo, fizeram o quê? São perguntas que até agora estão sem resposta.

O melhor amigo, após a morte da mãe, é o computador, uma verdadeira “roleta russa” de opções, com seus jogos violentos e sites bem propícios, onde pessoas com obsessões em comum, podem se encontrar.
A polícia se questiona como este jovem teve acesso às armas e ao treinamento, pois tinha perícia de atirador. Ora, ora, que perguntinha sem-vergonha! O acesso à arma não é de se espantar: tem mais arma por metro quadrado neste país do que livro ou oportunidade de êxito social. E mais, ele tinha os melhores professores: basta ligarmos um computador ou um videogame e poderemos nos “deliciar” com jogos como Bully, que promove violência e vandalismo dentro de uma escola (os produtores ainda dizem que trata-se de uma sátira! Ah! Estou explodindo de tanto rir!), Counter Strike, neste, o jogador pode desferir vários “head shots” (tiros na cabeça) em seus adversários (Seria este o preferido do assassino?). Lembrando que neste jogo você pode ser aliado ou terrorista, com missões específicas. Será que a vida, ou a subvida (neste caso), imitou a ficção? E temos ainda a série GTA (Grand Thief auto) e suas versões nas quais você pode ser justiceiro, bandido e pode ter dezenas de missões interessantes, como, por exemplo, matar civis, policiais, bandidos, roubar, depredar. Segundo o primo do assassino, ele passava horas na frente do computador, era fissurado por “11 de setembro” e até treinava em um simulador de vôo, lançar um avião sobre o Cristo Redentor (Puxa vida! Até terrorismo a juventude anda importando! Assim não dá!). Olha só quanta coisa “legal” para se colocar nas mãos de um jovem desequilibrado! Não é como acender um estopim? Sssss! Uma hora explode.

Você, caro leitor, pode até dizer que há pessoas que jogam jogos violentos e não ficam alienados e que também há pessoas que sofrem exclusão, abandono ou bullying e nem por isso produzem atrocidades ou entram no crime. Entretanto, até quando vamos colocar nossa segurança e o nosso futuro nas mãos do acaso? Você daria de presente a seu filho uma bomba-relógio ou uma cobra peçonhenta? Tem gente que presenteia! E aloém disso, encaremos os fatos: primeiro apareceu aquele jovem que atirou em pessoas dentro de um cinema, agora este outro jovem que atirou em crianças indefesas em plena sala de aula. O que eles tinham em comum? Ambos fritavam as ideias com jogos violentos! Até quando vamos permitir isto!? Será que já não está na hora de dar um basta nesta situação?

Temos ainda o cinema, que arrasta multidões com seus psicopatas escrotos e sanguinários, tais como o filme “Jogos mortais” e similares que estimulam a violência, banalizando a mesma. As redes sociais, ao mesmo tempo, que unem as pessoas, também agregam malucos em prol de uma mesma idiotice. No Orkut é comum encontrarmos comunidades como “Eu faço merda na escola”, “Minha escola é uma droga”, “A escola é a única droga que não vicia”, “Vamos botar fogo na escola” ou ainda “Terrorismo escolar”, onde alunos e ex-alunos orgulham-se, com nostalgia, de atos de vandalismo em escolas (Quanto incentivo, não!? Um verdadeiro “monstruário”).

Efeitos do Capitalismo, fins dos tempos, convulsão social, dissolução da família e de valores imprescindíveis para o desenvolvimento de atitudes cidadãs, afastamento de Deus, falta de oportunidade. Nem sei por onde começar, mas o que sei é que as pessoas trabalham demais e ganham pouco, tão pouco que um pai e uma mãe saem para trabalhar, delegando todo o processo educativo para a escola. A escola até tenta, mas a concorrência é muito desleal. Nossos heróis são de carne e osso e estão cansados. São muitos os vilões: o acesso a coisas impróprias e violentas, o crime, as drogas, a omissão, a ausência dos pais, que ficam atolados no mercado de trabalho, sem poderem criar um filho direito. E assim quando o sistema não consegue explorar ou dominar as pessoas, transformando-as em tijolos rijos, inertes e frios em um imenso muro de lamentações, acaba criando os seus Franksteins (bandidos, traficantes, insanos e psicopatas). Monstros que se voltam, geralmente, contra os membros mais indefesos da sociedade, que neste caso especificamente, foram as crianças daquela escola em Realengo. Crianças que nada fizeram de errado, não contribuíram para a criação daquele ser abominável que devorou suas vidas covardemente. Botões de rosa que foram ceifados antes do tempo e agora causam uma imensa lacuna na vida de seus pais. Vítimas que pagaram com a própria vida os erros de nossa sociedade.

Portanto, que a dor desta tragédia nos desperte para uma luta, pois o que aconteceu em Realengo poderia ter acontecido na escola de seu filho, caro leitor. Mas que nossa luta não seja cega, sem foco! Vamos lutar contra este sistema que nos destrói e nos consome, pois é o sistema que deveria servir ao homem e não o oposto! Vamos fechar, de uma vez por todas, esta fábrica de monstros na qual nossa sociedade se convertera. Vamos cuidar melhor de nossa casa, de nossos filhos, de nossa vida e de nossa educação, exigindo e lutando por uma escola de qualidade, uma saúde que honre os impostos que pagamos (E olha que são muitos!), um salário que possibilite termos qualidade de vida! E vamos exigir de nossos governantes, aquilo que eles prometeram no palanque de comício, em período de eleição. E, lembre-se, lugar de político vagabundo e corrupto é na lixeira! Não serve nem pra reciclagem! Vamos votar com consciência. Chega de analfabetismo político! Através de trabalho coletivo, envolvendo todos os cidadãos e as autoridades responsáveis, poderemos converter este sistema que cria e potencializa problemas em algo que soluciona e propicia oportunidades a todos os seus membros (Eu disse todos! Sem exclusão). Agindo assim, talvez um dia (quem sabe), poderemos lembrar destas atrocidades e destes monstros terríveis que o sistema criou, como uma triste lembrança de um passado muito distante. Chega de sermos ovelhinhas, esperando um lobo vir nos devorar! Chega de sermos “another brick in the wall!” (Outro tijolo no muro, Pink Floyd). Quebre o muro, construa pontes, construa caminhos, construa uma escola! Uma escola formativa e transformadora! Cuidar da escola é cuidar do nosso amanhã! E para finalizar esta reflexão gostaria de deixar para você, leitor, este trecho de uma música de nosso saudoso John Lennon: “Imagine all the people, living life in peace!” (Imagine todas as pessoas, vivendo a vida em paz!). E que assim seja!

André Luiz Raphael
Profirmeza (Professor Firmeza)