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terça-feira, 26 de abril de 2011

CERTO OU ERRADO (WALCYR CARRASCO)

A língua portuguesa está mudando. Se é um processo bom ou ruim, tenho minhas dúvidas. Mas é fato. Ao longo dos séculos, o português passou por inúmeras modificações. Já tentei ler textos do século XVIII. Impossíveis de compreender. Mal se reconhece o idioma pátrio. Ultimamente, tudo parece mais rápido. Palavras que ontem não existiam estão incorporadas ao vocabulário. Como o verbo deletar. Vindo do inglês, tornou-se comum com a popularização dos computadores. Significa apagar, eliminar. Já vi uma mocinha comentar sobre um desafeto:

- Deletei o safado da minha vida!

Quem costuma entrar na internet está familiarizado com as incontáveis abreviações. Criou-se um português codificado. Às vezes é preciso decifrar: "kd vc" quer dizer "cadê você?" ou, mais genericamente, "por que você sumiu?". "Blz" é "beleza", uma gíria para expressar concordância. "Rs", "risos". "Aki" é o popular "aqui". E assim por diante. A grafia de palavras com til também tem mudado: "não" é "naum", por exemplo. Ainda me confundo com certos hieróglifos, como :) para indicar um sorriso. Além de uma série de outros sinais, de cujo significado não tenho a menor idéia! Muitas vezes me sinto um mastodonte atolado enquanto o mundo caminha velozmente.

É bom ou ruim? Continuo a me perguntar! Em alguns casos, é péssimo. Raramente vejo o "há" grafado de maneira correta. Costumam esquecer o "H". É de doer, pois demonstra a falta de alguns rudimentos básicos. Em legendas de cinema, já cansei de ver a grafia errada: "a muito tempo..." Mesmo em jornais, eventualmente. Talvez seja inevitável: o "H" corre o risco de desaparecer, pela falta de uso. (E de utilidade, convenhamos, pois no início de palavras não tem sentido fonético.)

Ainda usamos expressões surgidas em outras épocas, quando a vida era diferente. Outro dia um amigo fofocou:

- Ela deu com os burros n'água!

Embora nas cidades grandes ninguém mais ande de carroça nem corra o risco de atolar com os quadrúpedes. Quando, certa vez, escrevi uma história de época, analisava as expressões dentro do significado histórico para saber se eram adequadas ou não. Um personagem falava:

- Comi à tripa forra!

"Tripa forra" vem da época da escravidão, quando o escravo forro era livre. Significa que se comeu à vontade, livremente. Em outra ocasião, botei um personagem vociferando:

- Vou te tirar do meu caderninho!

Um pesquisador me alertou:

- Na época as pessoas não tinham telefone. Só se passou a botar e tirar pessoas do "caderninho" ao surgir o hábito de anotar nomes e números.

Formas de falar logo ficarão obsoletas. Um ex com dor-de-cotovelo ainda pode reclamar:

- Ih! Ela queimou meu filme!

As máquinas fotográficas ainda têm filmes. Do jeito que as coisas vão, em breve todas serão digitais. Surgirá outro jeito de dizer a mesma coisa.

Aprender a usar a gramática, tempos verbais e a grafia correta é uma maneira de treinar o raciocínio. Quem não sabe falar ou escrever provavelmente não articula bem os pensamentos. Tenho medo de que certas mudanças sejam fruto de escolas péssimas, deficiências de aprendizado ou, simplesmente, preguiça. Mas também é preciso aceitar a evolução!

Portanto, nem tanto ao mar nem tanto à terra! Ei... Acho que essa expressão vem dos tempos em que marinheiros ainda saíam em busca de novos mundos! Na época, era moderníssima! Mais um motivo para apreciar nossas modernidades! Cada época se espelha em um modo de falar, ou a vaca vai para o brejo, ou a gente cai do cavalo, ou entra em um buraco negro. Fascinante é saber que a língua, enfim, é viva!

- Walcyr Carrasco, Revista VEJA

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